terça-feira, 1 de junho de 2021

Jacó (Sentis) x Pilatos ( Quebra-Frascos)/Serra dos Órgãos

                                         


Pilatos e Jacó a partir do Mamute.

Fazendo parte da Serra dos Órgãos com os seus 1.969 m de altitude o Pilatos é a décima segunda na lista das mais altas montanhas da serra. Seu acesso é próximo ao KM 16 da BR- 495.  O antigo acesso passava por algumas casas e bastava ser educado, respeitoso e pedir autorização para realizar a caminhada. Por conta do mau comportamento de alguns todos os outros pagaram pois atualmente os moradores não permitem a passagem. O novo acesso se dá numa grande escadaria branca ao lado da estrada, antes do recuo onde é possível estacionar o carro.

                                                      A busca por novas perspectivas...

    Depois do sucesso nas investidas para chegar ao Mamute o grupo decidiu que a próxima trilha seria o Jáco. Na ocasião os participantes Anderson Medeiros, Thais Bula, Rafael, Ricardo, Nana e Fred foram no Pilatos e se interessaram pelo Jáco, o que é bem fácil de compreender. 

Com tudo definido, fechamos a trilha que marcamos para o dia 22/05, sábado. Ricardo não compareceu por conta dos compromissos que tinha. André havia confirmado e convidamos o Alexandre Milhorance para participar. Combinamos no Bob's de Itaipava ás 06h00. Enquanto esperávamos a outra parte do grupo vimos o Ricardo em frente a guarita do terminal de Itaipava. Anderson foi lá cumprimentar ele e bater papo. O pessoal chegou e seguimos pela estrada Itaipava-Teresópolis( BR-495). O amanhecer foi belo, especialmente em volta do Cantagalo. Fui escutando musica e deixei a conversa para o Alê, Fred e Anderson.

                                                Sequestro da mochila.

Toda vez que vou para a trilha sempre deixo mochila comigo e nesse dia algo de diferente aconteceu...Ela foi no porta-malas do carro do Celso e eu saí para cumprimentar a galera que já estava bem animada logo pela manhã. Vi o Thiago sentado tranquilamente no banco do motorista e fui conversar com ele a respeito de um ocorrido no trabalho. Esqueci até de dar bom dia para o pessoal e consequentemente a mochila. Celso desceu tão rápido que a minha reação foi só olhar e torcer para que alguém estivesse me pregando uma peça naquela hora da manhã. Me voltei para o Anderson e disse que minha mochila havia ficado no porta malas.

Fiquei boquiaberto ao perceber que esqueci a mochila no Uber e tentamos contatar o motorista rapidamente  mas sem êxito. Aguardarmos seu retorno ansiosos e ao perceber que ele estava enfurecido, com rubror em seu rosto e sangue nos olhos claramente possuído pelo ódio mortal... ouviu-se um silêncio ensurdecedor. Perguntávamos: "será que ficaremos a pé na volta''?

Mas antes do Alexandre conseguir falar com ele apesar das falhas em função do péssimo sinal do celular e por conta do stress no trabalho, acabei externando um pouco e fui mal criado com o Alê e o Andinho - coisa que me arrependi assim que esfriei a cabeça. Alexandre começou a me colocar uma pilha pra valer e do lado dele, ninguém menos que o André reforçando o quanto mais puto eu ficasse, pior seria. E ele estava certo, eu fui o motivo da  risada generalizada antes da trilha. Me esforçava ao máximo para não dar ideia pra eles, mas era quase impossível. Acabei focando no assunto com o Thiago e dando atenção a simpática cadela que estava próxima de nós.

                                                  Rumo a trilha

Quando todos estavam prontos decidimos que era hora de caminhar depois do atraso de aproximadamente 30 minutos aguardando a mochila. Fui por último com o fone de ouvido tentando relaxar ao máximo e evitando a pilha que foi o assunto principal. Subi por último após esperar os rapazes ajudarem ás meninas que tinham dificuldade para subir os degraus exigentes. Pegamos a valeta e fomos para á esquerda e entramos na trilhá a direita. Anderson estava no pique e assumiu a ponta seguido por Rafael, Thais e Alexandre. Fred, Ozaki e Nana estavam um pouco a minha frente. Guardei o fone de ouvido e fui por último. Não estava bem fisicamente e psicologicamente. Me sentia péssimo e com um pouco de impaciência.

Notei que a trilha era bem agradável para se andar e que a predominância de samambaias era imensa. Numa das paradas que fizemos fui oferecer doce de leite e quase acabei acertando um no rosto do Alê. Enquanto isso Thais procurava no meio da vegetação e conseguiu achar. Nana também pegou um e ficamos ali, sentados no meio da trilha papeando. O grupo novamente voltou a caminhar e eu fui por último rindo do Alexandre jogando uma maça bem grande fora pois estava murcha. 

Em determinado momento dei um pique e ultrapassei a Thais e Alexandre . Um pouco acima passei pela Nana com um bico maior do que os dos Tucanos que tanto gosto de observar. Ainda sentia um cansaço físico inexplicável. Enquanto descansava com o meu mau humor fui ultrapassado por todos que passei momentos antes. Tomei um pouco de PowerRade enquanto via o Anderson lá em cima só esperando a gente. Ele estava numa disposição de causar inveja - no bom sentido- em mim. Acabei batendo um papo produtivo com a Nana e que foi importante pra deixar o stress lá em baixo e curtir a trilha. Toque certo na hora certa. Respirei fundo e fui fechando o grupo, passando pela subida com alguns buracos e samambaias por todo lado até chegar a laje. Subimos com cuidado e ali paramos para papear e comer alguma coisa.

Registro do Fred na laje em que paramos pra descansar.

Ficamos nessa laje por aproximadamente vinte minutos curtindo pra valer. Eu não parava de olhar o Mamute e o Cone 3. Alexandre comentava que faria um dia quente e ''embaçado''. Novamente tocamos pra cima passando por outro trecho de subida em meio as samambaias e eventuais buracos que desviamos durante o trajeto. Quando chegamos num trecho pouco mais plano e com uma vista linda para o Jacó, reparei na crista que levava até a base da montanha. Tínhamos outro trajeto em mente que certamente era muito mais atrativo. Levei um imenso susto quando estava com o olho no visor da câmera fazendo alguns registros quando notei de repente o Fred saindo sorrateiramente dos arbustos. 

Foi descendo esse colo que ouvi o André falando sobre o botão do meu short - que desprendeu-se- durante uma rápida ida na cachoeira da macumba. Desconversei e continuamos até chegar numa laje de pedra com o capim- de-anta que é nativo das regiões de altitude. Á esquerda, subindo a calha bem visível um pinheiro solitário servia de referência.


Thais e Rafa na trilha do Pilatos onde há o solitário pinheiro.

Nesse trecho a caminhada é marcante porque após vencer a subida que alternava laje e capim-de anta chegamos mais perto do Jacó. Montanha majestosa e imponente que impressiona com seu formato inigualável.  Dava pra ver até a Verruga do Frade, o que chamou bastante a atenção e isso sem mencionar o Pipoca, Mamute, Castelitos e outras montanhas impressionantes na linha dos 2.000m de altitude. 

Lugar impressionante.


Ficamos ali por um tempo admirando e fazendo fotos. Meu humor já estava melhor e então eu comecei a esperar por oportunidades de fazer piada e usar do meu leve sarcasmo para descontrair. E as minhas vítimas favoritas eram: Alexandre, Nana e Thais. Mais uma vez voltamos a andar e pegamos a trilha no capim-de-anta mais para á direita das lajes. Na direção oposta fica o caminho do Pilatos, montanha que pretendíamos passar na volta para ver o sol se pôr. Alexandre foi a frente com o André, Rafael e Anderson na cola. Thais ia na frente do Fred com a Nana e eu em seguida. Por ser a mais baixinha do grupo, Thais sofria com o capim-de-anta e divertia o grupo. O momento mais engraçado nesse trecho foi quando o Fred resolveu dar um baita susto nela. Aproveitando-se de uma rápida distração e da altura da vegetação, ele se abaixou com maestria enquanto ela falava comigo e com a Nana. Assim que ela voltou a andar o Fred pegou o tornozelo dela e eu podia jurar que ela ia morrer. Soltou outro berro, idêntico ao da trilha do Mamute. Caímos na gargalhada enquanto ela se apoiava num pedaço de tronco que eu nem reparei onde  havia conseguido. Continuamos a descida por lajes num trecho demasiado escorregadio até parar um pouco e fazer algumas fotos.

                        

Jacó, Verruga do Frade á esquerda e Papudo á direita.

Enquanto os outros se divertiam e faziam bastantes registros eu aproveitei para descansar no lajão de pedra. Rafael e Alexandre já haviam atravessado para a outra laje e exploravam todos os cantos. Aproveitando o ar puro e refrescante da mata, aguardei pacientemente com a câmera em mãos na expectativa de fazer foto do pessoal que descia a laje de encontro aos rapazes da dianteira.

André Ozaki na laje.

Thais e Nana.

Fred e Anderson

Quando todos estavam na laje do outro lado coloquei a câmera no case e me juntei a eles. Passamos por mais um trecho de laje que apresentava uma vegetação bem fofa e traiçoeira pois estava molhada. Decidimos fazer mais uma pausa ali. Era uma sensação muito gostosa estar reunido com tanta gente boa, alegre e de energia positiva.  Sentamos na laje espaçosa e começamos a lanchar e bater muito papo. 

Hidratados e com calorias entrando em nossos corpos, rumamos para o vale entre a parede do Pilatos e a base do Jacó.

Povo totalmente descontraído e relaxado nas lajes.

Partimos para a descida pelas lajes em direção a bela mata que víamos de cima por um trecho escorregadio e íngreme até pegar a calha bem visível indo em direção a encosta da montanha. A turma seguia andando num ritmo muito bom e papeava bastante. Logo chegamos no trecho em que teríamos que usar uma corda para conseguir acessar a trilha. Para a nossa surpresa não tinha corda lá e por precaução André levou uma corda de aproximadamente 30 metros. Enquanto nós descansamos na base, Ozaki vencia o trecho mais exposto do dia com muito cuidado para não se acidentar ou até mesmo cair em cima da gente. Ao chegar na parte de cima ele dividiu a corda e fez a segurança pro restante. Subimos um por vez e eu fui o penúltimo. Achei a subida tranquila com o apoio que a corda dava e notei o que parecia um banco natural para descansar.

Subida por cordas na trilha do Jacó

Com a turma toda recuperada seguimos pela bela trilha. Notei que era uma subida relativamente leve e com uma bela mata. Vi muitas orquídeas e bromélias pelo caminho. Chegamos num lajão de pedra onde mais uma vez paramos para papear e descansar. Anderson tirava algumas fotos e Thaís também aproveitou o embalo. O resto de nós conversava e apreciava parte da cidade de Teresópolis e  ás montanhas da região dos Três Picos. Novamente voltamos a caminhar até ladear um trecho rochoso com a trilha bem precária. O trecho a seguir em direção ao cume se estreitava até sair numa laje com um visual avassalador da Serra dos Órgãos. Dei uma boa olhada no Papudo, Pipoca, Contra-Forte do Pipoca, Pedra do Sino, Rabo da Jaguatirica e Mamute. Rumei novamente seguindo os sons emitidos pelo Rafa e Ozaki alternando trecho de vegetação arbustiva e algumas rochas até ver os rapazes naquele imenso lajão com o totem próximo a eles. Senti aquela sensação gostosa de realização e corri literalmente pro abraço cumprimentando os dois que já comemoravam lá. Aos poucos a turma toda chegou e parabenizamos uns aos outros com muita empolgação.

Totem de cume no Jacó

Num dia de céu limpo e com uma visão encantadora, nos reunimos no lajão e começamos a pegar nossos lanches, celulares, câmeras e tudo o que pretendíamos utilizar. Ao abrir o recipiente que guarda o livro de cume nos deparamos com uma folha solta e vimos a assinatura de alguns membros do CEP e do amigo e Thiago Haussig. Anderson levou um livro para colocarmos lá  e então assinamos. O papo no cume. Foi muito bom e ficamos por quase 2h aproximadamente relaxando e curtindo. No entanto sabíamos que a nossa trilha não acabava ali e o próximo objetivo era ir ao Pilatos também. Avistamos algumas pessoas no Papudo e na Pedra do Sino antes de fazer alguns registros do grupo e partir.

Lajão do Jacó onde fica o livro de cume.

Grupo registrado pelo Anderson.

Grupo registrado pelo Alexandre.

                                                              Rumo ao Pilatos

A volta foi bem tranquila apesar de termos nos deparado com um exército de formigas logo após sair do cume. Eu estava por último pois algum de nós empacava a trilha logo a frente e o que restava era se mexer para evitar a picada dolorosa. No trecho mais critico da trilha André colocou a corda para facilitar a descida. Thais teve um pouco de dificuldade mas foi aconselhada pelo grupo e o Rafael deu uma força. André e eu fomos os últimos. Papeamos e demos boas risadas até que o caminho estivesse livre. Nana também teve algumas dificuldades e Alexandre deu a ela uma ''forcinha'' pra facilitar a descida.

Trecho da corda

Depois da Nana eu desci e o André recolheu a corda. Chegamos a laje que paramos mais cedo e descansamos antes de prosseguir até a parte do capim-de-anta. Alexandre e eu fomos a frente na subida com o grupo no encalço. No capim-de-anta era bem complicado de se manter na trilha ''certa'' pois de tempos em tempos eu tinha que voltar e achar o caminho. Numa dessas acabei dentro de um buraco e o que vi foi a cara de riso do Fred por conta da situação. Rafa e Thais foram mais para o lado esquerdo enquanto o Alexandre procurava uma trilha mais lógica para sairmos dali. Foi então que minha paciência começou a esgotar e vi um rastro discreto á esquerda. Disparei sem aviso prévio para sair o mais rápido dali e chegar no topo do morrinho. Ao chegar, peguei água na mochila enquanto esperava os outros. Asim que chegaram ficamos um pouco e então partimos. O caminho agora seguia bem suave por uma vegetação rasteira que ia em direção ao morrote que antecede o cume do Pilatos. Ao tomar distância decidi pegar a câmera e fazer algumas fotos.

Mar de montanhas em Petrópolis a partir da trilha do Pilatos

O visual que se descortinava do ponto em que eu estava era absolutamente fantástico, daqueles de tirar o fôlego de qualquer um.

A subida final foi por trilha bem marcada com a predominância do capim-de-anta. Novamente estávamos em outro belíssimo cume com vista incrível para a cidade de Petrópolis, região da Serra dos Órgãos, Taquaril, Cantagalo e claro, Três Picos. 

Região dos Três Picos

Outra rodada de comemoração pelo êxito e mochilas espalhadas por todos os cantos. Aproveitamos para curtir o belo visual. Uns exploraram o cume e outros aproveitavam o lanche. Eu aproveitava tudo o que me ofereciam, estava com muita fome e não ousava recusar nada. A ideia era assistir o pôr do sol e fazer fotos mas acabou não acontecendo. Assinamos o livro de cume e  com o vento forte e frio começamos o caminho de volta para a estrada.

A volta foi bem tranquila e pegamos parte do caminho pela noite como ás lanternas em mãos e cabeças. Esperamos pouco tempo para o resgate chegar. O que fizemos foi bater papo para descontrair. Logo o Celso chegou para a nossa surpresa e alívio. Não seria necessário descer a serra a pé por conta de um leve vacilo. Nos despedimos e pegamos o caminho de volta para casa. A trilha foi um sucesso, com muita diversão e companheirismo num dia belo na serra mais linda do mundo: Serra dos Órgãos!

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Mamute/ Serra dos Órgãos

                                                     17 de Abril de 2021      

Montanha imponente tomando conta do cenário

                                                          O tempo e suas surpresas.

 O ano de 2017 com certeza foi um dos melhores que tive relacionado a caminhada nas montanhas. Estava muito empolgado e com energia de sobra para conhecer os lugares de que tanto ouvia falar. No mês de março do mesmo ano eu combinei com o Roberto Amarante a trilha do Morro da Mensagem. Para ser mais específico a caminhada foi no dia 04/03/2017. Neste mesmo dia,  Alexandre Milhorance acompanhado do Pablo Cristo e Philipe Almeida chegavam ao Mamute pela face Norte. Foram duas investidas incansáveis para se chegar naquele lugar sensacional. Eu fiquei admirado com a história e ainda mais quando vi ás fotos que o Alê me mostrou.

Alexandre e Philipe com o livro de cume em 2017.

Continuei fazendo as trilhas ao longo daquele ano inesquecível e nunca deixei de pensar no dia em que eu também chegaria lá. Foi então em Abril de 2021 quando recebi o convite da Thais Bula que conheci pelas redes sociais e fizemos a trilha do Alcobaça em Dezembro de 2018. A primeira dela depois de alguns anos sem caminhar. Aceitei de muita boa fé e então entrei no grupo. 

Assim que entrei no grupo do WPP já vi que tinha mais gente que eu conhecia além da Thais: Anderson Medeiros, Rafael Martins e André Ozaki. E também a outra parte que eu não conhecia até então: Fred, Ricardo e Fabiana. 

Todos os dias no grupo o assunto não era outro a não ser a previsão do tempo e a data tão esperada por todos que participariam da caminhada. Montanha inédita pra todo mundo!!!

Dias depois decidimos que iríamos no dia 17/04. A semana mais longa do ano até o presente momento. Na sexta-feira, dia antecessor a caminhada o tempo parecia não passar. Ao sair do trabalho segui a pé até a praça de Corrêas para comprar o lanche que era composto de bolo Ana Maria - que não são saudáveis porém deliciosos- e PowerRade. Em casa aproveitei uma caixa de bombom que estava fechada também. Arrumei a mochila e fui até a casa do meu pai para amolar o facão. Não sabia de nenhuma ida a montanha no período de dois anos. Imaginei que a calha não estaria tão rastreável e que seria trabalhoso. Na manhã seguinte fui para a entrada do Carangola esperar o Celso do uber. Ele já estava lá esperando e não perdi tempo. A parada seguinte foi nas proximidades da ponte de Corrêas ao lado do ponto de ônibus. Lá aguardamos a chegada do Fred e do Anderson. Um pouco mais de tortura após uma espera de quatro anos. Eles chegaram pouco tempo depois, nos cumprimentamos e seguimos rumo ao Bob's de Itaipava para pegar o Ricardo. Durante o percurso conversamos bastante antes de encontrar a outra parte do grupo que estava com o Thiago que trabalha na mesma empresa que eu. 

                                                      Encontro com os outros participantes.

Quando o motorista parou o carro , Anderson desceu todo animado e foi de encontro ao Ricardo. Bateram um papo curto. Depois foi até o carro do Thiago e começou a bater mais papo antes de voltarmos para a estrada. Seguimos subindo pela BR- 495 que liga Itaipava-Teresópolis  tendo 33,4 km de extensão na faixa de 1.500 metros. Ela  faz parte da Serra dos Órgãos com sua rodovia sinuosa e sem acostamento. Eu fui aproveitando o caminho e olhando para todos os lados de tão lindo que é. Depois de quase meia hora subindo chegamos ao KM 13 que é bem conhecido para os amantes de poços e cachoeiras. É lá o acesso da Cachoeira da Macumba ou Cachoeira dos 13.

Queda principal da Cachoeira da Macumba.

 Os carros estacionaram no larguinho e finalmente esticamos o esqueleto. Começamos a pegar nossas tralhas e começar a ''matracar'' antes de caminhar. O mais agitado aquela hora da manhã era o André que ria pelos cotovelos. Falei com o pessoal e nos despedimos do Celso e do Thiago .

                                                                     Canelada.
 
Com todo mundo pronto iniciamos a trilha por volta das 06h45 daquela manhã. Seguimos em fila pela trilha bem marcada passando pelos poços antes de ver a queda d'água. Ao chegar lá notei as fitas de demarcação nas cores amarelo e preto. Há pouco tempo uma mulher escorregou da parte alta da cachoeira e não resistiu. Continuamos o primeiro trecho do dia passando por uma subida por trilha íngreme e irregular em alguns pontos até nos depararmos com uma estrada.

Tomamos fôlego e descemos a estrada de terra á esquerda até cruzar uma ponte com um pequeno córrego. Aproveitei para encher os recipientes de água e cortamos caminho por um morrinho com vegetação rasteira em vez de fazer a volta. O pessoal ia conversando na maior empolgação.

Surge então ao lado direito antes de uma subida levemente acentuada uma bifurcação á direita. Seguindo esse caminho saímos numa área aberta de vegetação rasteira com uma enorme pedra de um lado e uma solitária auraucária do outro.


 A calha era bem perceptível e levava em direção ao trecho onde cruzamos ás pedras com a trilha do outro lado.

                                                       Ralação

Seguindo na frente e com o Rafael no meu encalço eu escutava o André rindo e divertindo o grupo o tempo todo. O trecho inicial parecia intocado enquanto eu rastreava a trilha procurando por marcas de facão ou qualquer outro sinal que ajudasse.  Isso não durou muito. Tiramos o facão das bainhas e começamos a bater facão num trecho de mata com a predominância das samambaias e capim enquanto engolia de tempo em tempo as teias de aranha. Prosseguimos por um tempo batendo facão para abrir caminho com o Anderson apoiando na navegação. Avançamos rapidamente até sair da vegetação trabalhosa e ''descansar''. Eu fui na frente com o Rafa rebatendo e o Anderson navegando. Esperamos os outros chegarem e também descansarem. O dia estava lindo, com a imensidão do céu azul e nuvens leves. Mas a história na mata era totalmente diferente. A cada ''braçada'' o calor aumentava e o esforço começava a cobrar bastante de todos nós. 

Rafael na ralação.

Foram poucos os trechos que conseguimos relaxar. Prosseguimos mais um pouco desviando de bambus e seguindo o rastro antigo da trilha até subir e ter que pular por cima do tronco de uma árvore caída no caminho. O que restava era pular e continuar até um trecho sombrio de bambuzal onde  Anderson fitou por segurança. Foi neste trecho, enquanto descia pra pegar o rastro da trilha que senti duas pontadas nas costas. Algumas abelhas nos atacaram. Pedi pro pessoal passar o mais rápido possível e em silêncio. Thais soltou um berro e a Nana se queixou pois levou algumas picadas também. André, Ricardo e Fred colocaram uma pilha amiga pra descontrair.
Ganhamos elevação ao chegar no que parecia ser a parte alta de um  morrote cercado de grandes árvores e vegetação  densa. Com auxílio do ''Dersão'' pegamos á direita e em seguida descemos o colo entre um morro e outro.

Rumamos então para á direita seguindo a orientação do Anderson até descer o colo e pegar a trilha do outro lado com uma subida bem suave e mata espaçada. Isso facilitou o avanço do grupo. Por descuido acabei perdendo o rastro da trilha e acabamos fazendo uma trilha paralela até descer num trecho acidentado com outro riacho. Esse por sua vez, não tinha tanto volume de água.

                                                         Aproximação da lajes.

A turma seguiu a todo vapor no trecho que aparentava ser o mais tranquilo. Rafael ia rebatendo com o facão enquanto eu abria caminho seguindo mais atento ao rastro da antiga trilha até topar com um emaranhado de ''aranha-gato''. Quando consegui passar por eles  me deparei com um tronco caído no caminho. Já perdendo a vitalidade por conta de todo o esforço que botei no início pra ganhar tempo e com o braço falhando aos poucos, o que fiz foi pular em cima de galhos e folhas para abrir caminho amassando tudo o que tinha pela frente. Recuperei o folego e prossegui para enfrentar as samambaias. Não durou nem 20 m  o meu avanço. Desse ponto o Rafael assumiu a frente e me deu um alívio enorme. Então aproveitei para rebater e descansar. Ele foi ganhando terreno aos poucos e o seguimos. Atrás de nós ouvíamos o André contando seus ''causos'' engraçados mergulhados na risada do Fred, Thais e Nana.

Trecho das samambaias.

Sem a sombra que ás arvores ofereciam na mata ficamos totalmente expostos ao calor do sol. Anderson, Rafa e eu seguimos próximos um do outro enquanto o povo de trás aproveitava pra manter o humor geral e fazer os registros.  Quando a trilha inclinou eu não perdi tempo e ofereci bombom pra dar um ânimo. Com muito esforço chegamos ás lajes e paramos para fazer o primeiro lanche do dia. Sentei tranquilamente enquanto admirava aquele lindo lugar com o Cone da Macumba bem a frente. Nana e Fred ficaram do outro lado pois o espaço era curto para acomodar todo mundo. Peguei tudo o que tinha e coloquei na ''oferenda'' do café da manhã.

Cone da Macumba a partir da laje.

                                                            Toca pra cima!!!

Acabamos de lanchar, arrumamos ás tralhas e seguimos com o objetivo de pegar caminho rumo a  face norte da montanha. André e Ricardo subiram um lajão bem inclinado e fizeram a segurança com a corda. O trecho não era tão exposto mas apresentava um perigo relevante. Um por um, subimos pelas lajes evitando ás partes molhadas que eram bem escorregadias. Nesse trecho um pinheiro solitário na rocha fazia parte da orientação. Decidimos ir pela esquerda aproveitando o apoio da vegetação. Thais, Rafael e eu fomos pela direita  pois os outros já estavam no lado esquerdo. Nos beneficiamos de um tronco caído para dar suporte quando mudamos para o outro lado da laje escorregadia passando por um rastro bem definido. Desse ponto em diante é impressionante a quantidade de bromélias no lugar. Passamos por um ''degrau'' exigente até encostar num paredão rochoso com a trilha estreita. 
Vencemos alguns trechos que alternavam rocha e terra até sair numa valeta. Por conta do cansaço e do esforço feito na primeira parte da trilha comecei a sentir fortes câimbras.


Valeta natural nas lajes da montanha.

Ricardo, André e Rafa voaram neste trecho rochoso seguidos pela Thais e a Nana. Anderson ia tranquilamente atento a navegação e passando ás coordenadas. Eu fui por último me esforçando apesar do incômodo. Peguei um pouco de água pra hidratar e a Nana me deu uma mariola bem açucarada que ajudou muito. Passamos com todo o cuidado pela subida íngreme das lajes quando o Anderson notou que o Rafa e o Ricardo sumiram de vista. Fomos em direção a crista e vimos eles logo acima, esperando por nós. As meninas subiram para se juntar a eles enquanto eu batia um papo com o André. O Fred estava se sentindo mal para prosseguir apesar do apoio que demos a ele. Anderson também subiu e eu decidi esperar o André voltar pois acompanhou nosso amigo até um ponto menos exposto e recomendou que aguardasse até o nosso retorno. 

André retornou e demos sequência na caminhada juntando-se ao grupo numa linda subida com o visual incrível voltado para a cidade de Petrópolis. Aproveitamos muito para curtir o local e fazer alguns registros. Sentei um pouco e comecei a admirar o Cone 3 ao lado .
Thais, Anderson, Ricardo e Rafa na crista do Mamute.

Por termos caminhado por um longo tempo expostos nas lajes e fazendo um enorme esforço extra, fomos devagar nessa parte. André tomou a dianteira acompanhado pelo Ricardo e começou a abrir caminho. Seguimos o rastro até conseguir um curto descanso numa laje de pedra isolada em meio a mata. 


Andre, Ricardo e eu descansando nas lajes.

Sem tempo a perder e com o tempo passando, voltamos para a crista vegetativa. ''Ozaki'' já estava varando mato no peito para agilizar. Não demorou e então vimos a canaleta que iríamos passar logo a frente.  

Passagem da canaleta que dá acesso ao lindo mirante. 

Após passar pela canaleta, nos reunimos no fim da subida e marcamos um tempo ali. Prosseguimos com cuidado neste trecho devido a exposição e chegamos no belo mirante que tinha como destaque um belo totem. 

Totem no mirante.

Colocamos nossas mochilas no chão e decidimos não prosseguir para o cume. Eu queria muito ir mas não dependia apenas de um só. O grupo chegou ao acordo de voltar no próximo fim de semana que ficasse bom pra todo mundo.

Curtimos muito no mirante apesar do vento forte e frio mesmo com o céu azul e nuvens leves. A galera não perdeu tempo e foi para a sessão de fotos antes de nos reunirmos para o bate-papo e claro, o lanche!!!
André e Rafael.

Anderson Medeiros.

André, Fabi, Thais e Rafael.

Aproveitei o embalo para fazer algumas fotos do visual que se descortinava ao nosso redor. Me encantei com a pontinha do Garrafão e o ângulo impressionante do Pipoca. A serra do Cantagalo e do Taquaril vistos de lá eram um espetáculo a parte.

Papudo, Pipoca, Pedra do Sino e Garrafão.

Cantagalo e Triunfo.


Taquaril Maior, Taquaril Menor, Jacuba Maior e Jacuba Menor.


Pilatos( Quebra-Frascos) e Jacó( Sentis).

Satisfeito com os registro das montanhas ao redor voltei a atenção para o grupo e fiz algumas fotos deles curtindo o momento.

Grupo aproveitando pra tirar fotos e filmar.

Nana, Ricardo e Anderson.


Por volta das 16:00 recolhemos nossos pertences e decidimos iniciar a descida. Para finalizar fizemos uma foto com o grupo todo reunido.

Registro antes da partida.


A volta foi bem tranquila e relaxante. Rapidamente chegamos até o Fred que aguardava lá embaixo  no lajão. Dei uma força pra Nana e Thais em alguns trechos e chegamos ao ponto onde utilizamos uma corda na subida. O entardecer estava lindo. Eu apreciei cada momento e o pessoal fez o mesmo.
Pegamos o trecho de mata já pela noite e chegamos ao largo onde aguardamos o uber. Fazia um frio tremendo e eu me sentei no chão pra descansar. Teve aranha subindo na perna de participante. Teve gente travando pra alertar o perigo. O pior momento foi quando pegaram até o facão pra resolver o problema. O que restou foi bater papo e suportar o frio até a chegada do resgate. Quando nossa carona chegou nos despedimos e fomos embora com a ideia fixa de fazer outra investida.
 
   
                                                    Segunda investida - 15/05/2021
 
Diferente da primeira vez que decidimos ir ao Mamute a excursão seguinte foi num dia nublado e com as lajes bem molhadas em alguns pontos. Alguns não puderam ir devido aos seus compromissos. Por fim eu, Thais, Rafael e Nana já tínhamos confirmado presença. Anderson confirmou por último e fomos para concluir o que começamos. Pegamos a estrada ainda na madrugada e tive uma força do Celso que me buscou no bairro onde moro por conta da indisponibilidade do ônibus. Chegamos no largo da Cachoeira por volta das 05h30. Pegamos um trecho ainda escuro com ás lanternas ligadas mesmo com a aproximação da luz do dia. Íamos num bom ritmo e eu estava bem animado. Seguimos rapidamente pela mata e nem percebemos a rapidez com que chegamos ás lajes. Novamente fizemos uma pausa. Enquanto fazia um lanche leve apreciava o Cone da Macumba num dia totalmente diferente.Avaliamos a situação e seguimos em frente. O dia estava bem nublado e pouco se via do incrível visual que conhecemos há quase um mês . Rafael tomou a dianteira e eu fechei o grupo indo por último, sempre atento a todos.
Subida pelo lajão do Mamute.

Continuamos a trilha tomando todo o cuidado necessário e de tempo em tempo parando para avaliar a situação. Ás 11:00h chegamos ao mirante onde paramos na investida anterior para lanchar e recuperar energia. Decididos, partimos para o ataque ao cume.

                                                                     Trecho final.

Rafael tomou a frente e iniciou a abertura comigo rebatendo. Disse a ele para não se preocupar em limpar muito a calha que revelava um antigo rastro. A vegetação era composta por samambaia e capim. Avançamos com facilidade em meio a névoa densa.  Depois de uns 20 minutos de subida percebemos que ultrapassamos a linha das nuvens  revelando a espetacular visão da parte alta da Serra dos Órgãos revelando os morros pro lado do Açu.Subimos para registrar e na volta tomei a frente. Estava mais empolgado do que o normal. Quase não parei até ver uma laje á esquerda e seguir por uma calha bem visível que o Rafa atento me mostrou. Passamos pela vegetação rasteira que levava até essa laje.

Rafael na subida da laje que antecede o cume.

 Mal sabíamos que no fim dela veríamos o totem que marca o cume projetado para a direção Norte com os seus 1997 metros de altitude. O cume maior fica após a longa crista com 2026m. Como eu estava na frente, fui direto para o totem que guardava o livro e o levantei movimentando freneticamente para o pessoal. 

Totem do Mamute.

Rafael chegou em seguida com  Anderson no encalço. Thais e Nana fecharam o grupo. Nos abraçamos e comemoramos a realização. Sentamos para relaxar e deixamos as mochilas jogadas por todos os cantos. Lendo o livro fiquei surpreso ao ver que a última visita registrada era do ano de 2018. E depois de três anos, estávamos lá com o livro em nossas mãos, bem felizes e emocionados pois foi uma conquista pessoal que marcou todo mundo. Só faltou a companhia dos nossos companheiros que não puderam participar e dedicamos a eles o feito. Não contive o sorriso ao ler o relato do Alexandre Milhorance no ano de 2017, quando tive a oportunidade de ir e não fui. Como o tempo é maravilhoso e nos surpreende. Com o céu azul entre nuvens claras, névoa de um lado e aquele maravilhoso tapete do outro decidimos fazer nossas fotos e vídeos antes que a névoa tomasse conta.


Rafael Martins e Thais Bula.



Anderson Medeiros.

Fabi

Fiz algumas fotos do pessoal e até tomei umas picadas de formiga enquanto registrava o Anderson. Doeu pra valer e então fui me hidratar e aproveitar o banquete. Fabi parecia um mercadão de tanta coisa. No fim tinha de tudo, até nuggets. Ficamos por uma hora e meia no cume e fizemos foto do livro e do grupo reunido antes de partir.

Grupo reunido antes da partida.

Livro de cume assinado.

Eu clicado pela Thais.


                                                                   Hora de voltar...

Iniciamos o caminho de volta com muita leveza e tranquilidade. Anderson sumiu na frente e o Rafael em seguida. O que me restava era ir por último implicando com a Thais e a Nana enquanto curtia o vale do Bonfim e os Cones. Com todo cuidado e atenção chegamos com segurança na parte das samambaias e pegamos maior mobilidade na mata. Dei uma passada rápida pra olhar a Cachoeira da Macumba topando com algumas pessoas que praticavam rapel lá. Fiz uma foto e a Nana também foi lá com a mesma intenção. A essa altura os outros já estavam no largo onde os carros paravam. Fiquei pra trás por conta do botão do short ter soltado e me deixado em apuros. Tive que improvisar e arrancar uma cordinha da mochila pra dar um nó. Thiago e Fred já estavam lá quando cheguei e então partimos. Fui dormindo a maior parte do caminho e deixei Fred e Anderson conversando entre si. Recebemos a ligação do Rafael marcando a comemoração na chopperia do Plazza e nem pensei duas vezes. Só o Anderson que não pode comparecer. Fiquei na praça de Corrêas e finalizei o dia na companhia da Nana, Thais e Rafa, tomando um bom vinho e uma cachaça de milho enquanto eles tomavam cerveja. Me despedi deles e quando achei que só os veria nos próximos fins de semana ganhei uma carona do Thiago até a entrada do Carangola. Agradeci pela ajuda e aguardei a chegada do ônibus com a alma leve a a sensação de realização ao lado de pessoas de bem, que se ajudam e curtem o montanhismo!!!


sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Palmares x Serra das Antas x Monte de Milho/ Serra das Araras

                                                    Caminhando comigo outra vez.

       Com o fim de semana chegando após outra longa semana de trabalho na empresa, comecei a pensar em qual caminhada faria. Também esperava a confirmação do Alexandre Milhorance sobre a sua disponibilidade para o sábado, dia 26/09/2020. Recebi a mensagem do Alexandre informando que ele tinha outro compromisso. Até convidei outras pessoas para ter alguma companhia, mas todos me informaram estar indisponíveis. Acabei entrando em contato com a Associação dos Moradores de Araras para avisar que eu iria realizar a trilha e tinha consciência de levar e trazer os cachorros de volta comigo.

Placa de orientações.

   Desde 2018 eu tinha um enorme interesse em conhecer o Monte de Milho, um lindo pico pontiagudo que fica na borda oeste da Serra das Araras sendo uma trilha exigente apesar de ser curta. O seu acesso é pelo Vale das Limeiras que está situado á noroeste da Serra das Araras e por lá não tem acesso de ônibus por ser uma região distante. Alexandre me relatou sobre aquele lindo lugar com muito Rabo-de-galo nas lajes e o visual incrível das montanhas adjacentes. Disse também que foram até a Serra das Antas, montanha vizinha da Maria Comprida.

Já sabendo que eu teria a minha própria companhia, mandei informações e mapas para minha mãe no Wpp. Ela nunca gosta que eu vá sozinho e eu entendia perfeitamente. Me preparei, deixei tudo arrumado e fui dormir. Acordei ás 05h00 da manhã, me arrumei e peguei o ônibus do bairro. Já na entrada do Carangola aguardei a passagem do 700(Itaipava) que não demorou e cheguei ao terminal de Corrêas por volta das 06h00. Lá comprei um gatorade sabor laranja e tomei um café pingado enquanto aguardava o 610(Araras). 

Ao olhar com mais atenção para a plataforma naquela manhã tranquila, avistei o 622(Santa Luzia) que sairia as 06h15. Não perdi tempo e embarquei. Sentei na janela e soltei a minha playlist de músicas Indie até chegar no local de acesso para o Palmares.

                                                                    Malta. 

 Por volta das 06h45 cheguei a localidade de Santa Catarina, na base da montanha. Ao desembarcar, um senhor começou a papear comigo sobre a região e me contou o que fazia quando jovem. Ficamos por 10 minutos batendo papo com a máscara no rosto e então fui a padaria para comprar mais algumas coisas. Por estar atento a previsão e tendo conhecimento da temperatura prevista para o dia, levei 4,5L de água e comprei outro isotônico para complementar. Ao seguir para a rua de acesso, me deparei com um grupo relativamente grande de pessoas com roupas e tênis bem esportivos. Não pensei duas vezes e após desejar um bom dia a todos, disparei na frente deles. Chegando no portão de acesso, ouvi alguns latidos e de repente estava cercado por dois cachorros e duas cadelas. Passei pelo portão, fechei  e segui caminho. Os cachorros sumiram e só restaram ás simpáticas cadelas. Olhei o relógio e já marcava 07h10. Peguei duas garrafinhas, coloquei uma em cada bolso da calça e segui trilha acima me hidratando aos poucos. O caminho seguia pela bela mata muito bem definido passando por muitos riachos onde coletei água para preencher meus recipientes. Ao sair dessa primeira parte da subida nos deparamos com um colo onde há um reservatório de água. Decidi que a hora de lanchar tinha chegado. Dividi meu bolo de cenoura com cobertura de chocolate com as simpáticas cadelas antes de prosseguir para a crista que da acesso ao primeiro cume da caminhada.

Cadelas simpáticas.

Crista do Palmares.

Já recuperado com a breve pausa para o lanche, segui na trilha mantendo um bom ritmo. Notei a presença de algumas nuvens na região. A maior parte delas envolvendo a Serra das Antas e Maria Comprida. Continuei a caminhar parando bem pouco, aproveitando a companhia das cadelas. O visual estava muito bom e eu parei para fazer um registro antes de prosseguir. Peguei o celular e fiz uma foto da Pedra Comprida de Araras(CEP70). 

CEP70 visto da trilha do Palmares.

Guardei o celular no bolso e continuei a subir pela crista arbustiva da crista com a calha que apontava para todos os lados e que levava ao mesmo lugar praticamente. As cadelas seguiam a todo vapor e me deixavam comendo poeira. Por volta das 07h45 parei para apreciar a montanha imponente que dominava a paisagem á esquerda. Essa montanha é o cume Sudoeste da Serra das Antas. Estive lá em 2017 e desde então não retornei. Apreciei e senti uma boa sensação ao lembrar do momentos vividos naquele dia. Não deixei passar em branco e fiz um registro enquanto curtia minha nostalgia.

Cume Sudoeste da Serra das Antas.

Andando mais um pouco cheguei a parte das lajes da subida tranquila da crista e o cume estava bem próximo. A crista começou a ficar estreita e rochosa. 

Crista estreita e rochosa que dá acesso ao Palmares.

Nada que eu não soubesse. Há duas semanas fiz o Palmares X Morro Careca( Pedra Azul). Nesse dia tive a companhia do Renan Machado e da Luana. Foi um dia muito divertido e especialmente por ter a oportunidade de apresentar essas duas montanhas a eles. Voltando a trilha, passei com cautela para o trecho exposto. Venci com cuidado e achei que as cadelas não conseguiriam passar. Fiquei preocupado e pensativo se iria ou não prosseguir com o plano. Não me agradava a ideia de seguir a trilha deixando elas por conta própria para voltar. Quando atingi a crista do outro lado, fiquei surpreso ao ver que elas chegaram pela mata. Me senti aliviado e segui para o cume do Palmares. De lá, olhei a  vista parcial da Maria Comprida. Do cume do Palmares, seguindo a calha, surge discretamente á direita o rastro da trilha para o Morro Careca. Descendo a esquerda até uma pedra, é o caminho para a Serra das Antas. Tomei água, isotônico e dividi o que sobrou do bolo e um salgado com as cadelas. Também compartilhei a água em outro recipiente. Uns 15 minutos depois as cadelas me abandonaram e foram ao encontro do grupo que deixei pra trás. Quando me levantei e fiquei visível ouvi algumas exclamações com tom de surpresa. Arrumei tudo e segui descendo a trilha até pegar a descida das lajes do Palmares. Com cuidado, venci os trechos e usei uma árvore seca como referência. 

Palmares a partir do início da trilha da Serra das Antas.

 A trilha segue pela mata e logo surge uma bifurcação á direita. Notei que era uma boa descida. Continuei caminhando e tomando água o tempo todo. Logo a trilha começa a subir passando por um lindo trecho repleto de bromélias com a trilha bem definida. Foi neste trecho que registrei uma bela orquídea.
Orquídea.

Bastante animado e com um ritmo bom, continuei a subir apreciando cada detalhe do caminho. Apesar de estar bem adiantado, já sentia um pouco do calor. Uma prévia do que me aguardava durante a caminhada. Tive a sorte de ver uma linda bromélia e não deixei passar em branco.

Bromélia.

Numa parada para descansar um pouco, aproveitei para fazer um registro do Palmares de um ângulo interessante que já fazia a caminhada valer muito a pena. 

Belo ângulo do Palmares com o CEP70 ao fundo.

Novamente segui caminho com a mata arbustiva acompanhada da mata de altitude. O sol agora já estava mais presente e eu exposto. Continuei seguindo a trilha bem definida aproveitando todo aquele visual que tinha ao meu redor. Era encantador apreciar as montanhas ao redor de forma inédita.

A caminho da Serra das Antas.

Continuando a caminhar pela mata de altitude e seguindo a trilha bem visível parei para dar uma boa olhada e focar o olhar pra fazer um registro da região em que me encontrava. Até que não foi uma tarefa difícil de se fazer. A trilha começa a descer um pouco num trecho descampado com vegetação rasteira que logo dá lugar ao que parece mais um ''tapetão'' de tão fofo que era.

''Tapetão''.

 A trilha segue por esse ''tapetão'' e sem muito aviso vira á direita até chegar em outro trecho idêntico ao anterior. Neste ponto a trilha segue descendo á esquerda em meio a vegetação. Descida bem curta até chegar num ponto com um tronco caído e água. Por estar abastecido e analisar aquela fonte d'água parada, optei por não pegar e segui a trilha subindo á esquerda. Ao final do rastro surge um lajão com algumas bromélias na lateral.

Trecho de laje.

A partir da laje segui subindo pela direita e depois cruzei a laje seguindo para o lado oposto. Aproveitei para dar uma respirada e fazer um registro do local. A beleza cênica era impressionante e o cume Sudoeste da Serra das Antas muito bonito visto dali.  O CEP70  também aparecia ao longe para enriquecer a paisagem.

Cume Sudoeste da Serra das Antas em destaque.

Voltei a andar passando pelo platô seguindo para á esquerda. A laje estava um pouco molhada em alguns trechos. Dei uma boa avaliada e cheguei a conclusão de que qualquer descuido eu rolaria e poderia me machucar feio. Com cuidado aproveitei a aderência dos pontos mais secos e consegui passar para o platô que ficava ao lado com a trilha acima, seguindo á esquerda. A trilha permanecia bem definida e como em alguns outros trechos surgiam algumas entradas curtas que não davam em lugar algum. Logo a vegetação de altitude começa a predominar e permite caminhar com visual amplo alternando trechos de trilha e algumas lajes. Pouco se sobe depois das lajes. E nem se percebe que sobe, pois essa parte final é suave e já começa a dar a tão merecida recompensa. Outra parada para hidratar e aproveitei para um novo registro.

Vegetação de altitude.

Ao ganhar mais um pouco de elevação, talvez algo em torno de 70 metros já é possível ver a mudança radical do lugar com vista mais ampla.

Incrível vista para Serra do Couto e Serra das Araras.

Com o calor da manhã ganhando força e a temperatura aumentando gradativamente, andei saboreando a minha própria companhia pela trilha até perceber algumas curvas que me jogavam da esquerda para a direita até chegar ao cume da Serra das Antas. Olhei o horário e fiquei bem animado. Ás 09h48 lá estava, comemorando como se tivesse feito um gol aos 49 do segundo tempo, levando a torcida a loucura. O sentimento de realização era engrandecido por estar em minha própria companhia. O momento mais marcante é quando uma nuvem insistente começa a se desfazer e a Maria Comprida se apresenta de forma magnífica a minha frente. Esse foi um momento marcante e emocionante.

Nuvens encobrindo parcialmente o cume da Maria Comprida.

 No cume propriamente dito havia algumas pedras que pensei ser o totem. Ao me aproximar, me deparo com os restos de uma fogueira.

Resto de fogueira.

No cume dei uma boa olhada em duas bifurcações que surgiam do lado esquerdo. Uma ia para a direita, levando em direção a crista que sai na Via Ferrata(Acesso para a Maria Comprida) e a outra, um pouco atrás, seguindo para o lado oposto. Já sabia que ali seria o próximo destino. Aproveitei e desci até o mirante próximo ao cume, peguei um salgado e o isotônico para lanchar enquanto lia o livro de cume. Fiz uma foto da Maria Comprida, que agora aparecia com mais destaque.

Imponente Maria Comprida.

Aproveitei bastante o mirante e a paz da montanha para ler os relatos dos outros montanhistas e suas experiências por lá. Após ler muitos relatos, assinei o livro e terminei meu lanche.

Livro de cume.

Com muito ânimo e feliz por ter conseguido ir bem até a Serra das Antas, embalei o livro devidamente e o guardei com todo cuidado. Coloquei ele na marmita e novamente fechei o totem.


Totem da Serra das Antas.

Ao consultar o horário, o relógio marcava 10h20. Hora de partir...

Serra das Antas x Monte de Milho.

A temperatura aumentava gradativamente e o consumo de água era constante. Desci seguindo a trilha me orientando por alguns poucos totens e vi algumas fitas presas aos arbustos mais altos. Me concentrei na direção para me orientar e ficava bastante ligado nas marcas de desgaste das lajes de pedra que deixam um rastro esbranquiçado por conta da exposição de pequenos cristais na rocha. Reparei também que havia setas feitas na rocha. Parei para fazer um registro da laje e de algumas bromélias por lá.

Descida por lajes a caminho do Monte de Milho.


Conforme seguia descendo pelas lajes, o caminho ficava um pouco mais exigente e exigia atenção. Escorria um filete d'água pela rocha e num determinado ponto atravessei para o lado oposto da laje molhada para a esquerda. Foi daí que vi o incrível Monte de Milho e a sua bela crista. Aproveitei para registrar e depois segui por trechos que alternavam entre trilha, lajes e uns blocos de pedra que eram facilmente vencidos com atenção.

Laje com bromélias e o Monte de Milho.

Ao abandonar a exposição do terreno aberto e entrar na mata, dei outra respirada. Apreciei aquele momento e novamente voltei ao movimento. A descida era muito bem definida e oferecia sombra. Nessa altura do campeonato já ajudava bastante. Em alguns pontos dava pra observar o paredão da Serra das Antas tomando forma bem ao lado. A Maria Comprida também começava a revelar um ângulo bem diferente e bonito de se observar.

Paredões rochosos na descida da trilha para o Monte de Milho.

Mais motivado do que nunca, cheguei rapidamente a crista que levava ao Monte de Milho. Segui admirando o visual ao meu redor e fiquei encantado com o visual pontiagudo da montanha a partir de um trecho de rocha na lateral da crista.

Formato pontiagudo do Monte de Milho a partir da crista.

 O caminho na crista era agradável com a trilha indefinida em alguns trechos. Surgiam algumas lajes e a montanha parecia cada vez mais perto. O coração acelerado, o vento soprando o rosto, o canto dos pássaros ao redor faziam o ambiente mágico. As bromélias davam um charme especial a crista e o Rabo-de-Galo fechava com chave de ouro na reta final para o cume.

Rabo-de-Galo.

Cheguei na reta final com todo o gás e muita empolgação. Faltando pouco para o cume, fui com muita sede ao pote e senti o indício de uma câimbra. Parei a tempo e fiz uma massagem rápida na região. Respirei fundo, controlei a ansiedade, agradeci ao Criador e então cheguei. Ás 11h07 daquela manhã ensolarada alcancei o objetivo. Foi inexplicável a sensação e os olhos ficaram cheios ''d'água''. Eu senti arrepios no corpo, me senti vivo e feliz por ter feito num tempo que considerei muito bom. Fiz do Malta até o Monte de Milho em 04h07 contando com as paradas. Apreciei a vista e não perdi tempo para registrar o visual dali.

Maria Comprida a partir do Monte de Milho.

Quando deixei a mochila na sombra, fiz uma ligação para avisar minha mãe que havia chegado ao destino e que começaria a retornar por volta de 12h00. Fui até o totem onde o livro fica e então tive a surpresa quando abri a urna. O livro não estava lá.

Urna do Monte de Milho vazia.

Comecei a guardar a urna e a envolvi nas precárias embalagens plásticas que restavam. Peguei meu isotônico e fiquei ali curtindo a montanha e o visual do lugar. Aproveitei para dar um descanso as pernas e apenas apreciei o lugar. Por não ter automóvel, eu não tinha ideia de quando faria esta magnífica montanha já que seu acesso é por Secretário em uma região distante e sem ônibus.

Acabei iniciando o caminho de volta ás 11h40. Apesar de ter levado bastante água, o que eu tinha agora teria que ser racionado até chegar na trilha do Palmares. Sobrou apenas 500ml. A tentação de beber tudo passava no pensamento a todo instante. Mas eu estava focado em fazer aquilo render o máximo que pudesse. Por volta de 12h30 eu estava quase chegando ao trecho das lajes para voltar a Serra das Antas. Ao chegar nas lajes, senti o corpo cobrar a reposição de água. Aproveitei para respirar e acabei me deparando com belos lírios.

Lírios e Rabo-de-Galo nas lajes da Serra das Antas.

Quando fui bicar a garrafa, senti que estava quente. De forma completamente irracional eu acabei molhando a nuca e o rosto. E lá se foi  a minha água. Quando me dei conta e olhei na mochila, todos os recipientes estavam vazios e percebi que havia feito borrada mesmo estando focado na quantidade limitada. Aproximadamente ás 12h40 eu cheguei a Serra das Antas e relatei a ida ao Monte de Milho.
Para finalizar a bateria do meu celular estava prestes a acabar e fiz a última foto do dia. E não podia ser nada mais, nada menos do que a majestosa Maria Comprida.

Ângulo incrível da Maria Comprida.

Voltei a andar por volta das 13h15 com calor sufocante. O lado positivo é que até as lajes do Palmares eu iria tranquilo. Bom, isso foi o que eu pensei. Conforme a hora passava e eu não tomava um gole d'água, o cansaço aumentava aos poucos, sabotando meu ritmo consideravelmente. Quando me sentei pra descansar, quase chegando ao Palmares, fiquei pensando na minha situação: Sem água, sem comida e sem bateria no celular. Foquei nisto e continuei com muita atenção e desacelerei. Só voltei a acelerar quando passei pelo trecho exposto do Palmares. Desci a todo vapor até entrar na bifurcação que leva a trilha da Pedra Comprida de Araras onde a água do riacho fluía bem. Tomei água aos poucos e fui me sentindo melhor. Ao passar pelo portão de acesso, perguntei ao morador sobre ás horas. Fique surpreso quando ele disse que eram 15h30. Me despedi dele e então comemorei bastante. A volta durou 04h23. A ida 04h07. No total deu 08h30 de caminhada(ida-e-volta). Fiquei satisfeito com o resultado e então me dirigi até a choperia do Malta. Pedi dois hambúrguer's e uma torre de 2,5L de cerveja para comemorar. No fim das contas faltou tomar os 500ml que sobrou...
Satisfeito, aguardei o ônibus para voltar ao terminal de Corrêas. Inexplicavelmente o 602(Vale das Videiras) passou e então curti o caminho de volta. Foi a conta para pegar o 615(Vale do Carangola) e ir pra casa realizado depois de um dia incrível nas montanhas.